AS AVENTURAS DE MISS BORDERLINE
I- O Despertar II- Um amigo e umas fantasias III- Três corações IV - Seu companheiro: o telefone V - Almoço ajantarado
I - O despertar
O dia amanheceu esquisito, manco e zarolho! Um
friozinho úmido de lagoa e sapos. Nem as cadelas, sempre estupidamente animadas
– de aborrecer- saíram de suas casinhas.
E cadê o sol nesse dia de meu deus? Esse
estava nem aí com a hora do Brasil:
“moscava” tonto atrás dum cinza
gosmento, que parecia querer despencar pesado feito uma marreta sobre os
chifres de qualquer otimista! Lento,... lento,... - Mas muito lento! - Tudo
parecia soçobrar tristezas.
E foi justamente, tendo como pano fundo dia tão
desnecessário, que veio à luz, um tanto tardia, em costumeira manhã de meio
dia. Mais que acordar – enfim –
renascia, Ela! Miss Borderline:
- Ái!!! Que dia lindo! Hoje estou
ma..ra...vi...lho...sa !
Acordara em momento de euforia, e assim, nem
que o diabo aparecesse de corpo e chifres presentes abalaria sua felicidade e
fé na sua humanidade. Saltou do leito,
colocou seu roupão e seguiu para o detalhado ritual de cuidados matinais.
Em tudo Miss Borderline exagerava, em tudo ela
era de mais! - Quando não - e isso era frequente – por pouco, sentia-se menos
que o mínimo! Um grão de pó no criado mudo. E bastou olhar-se ao espelho, para
que seu castelo de cristal ruísse:
- Fodeu! Olha aqui, um fiozinho de cabelo
branco! Nossa!...Que merda: to ficando velha, oh, nojo! Tô
aca...ba...da...Deus, que horror!
Triste, saiu do cômodo, muito incomodada
arrastava os pés pesados, inconformados. Queria se matar, queira se matar! - Um
fio de cabelo branco, no auge de seus fogos, ainda, juvenis? Segundos depois,
já queria matar um , ah como queria...E resolveu fazer alguma coisa útil com
seu ódio.
- Vou acabar com aquele gringo sem vergonha...Já sei, já sei...
Ligou o computador, acessando uma das redes relacionamentos mais famosas,
decidiu que não passaria daquele dia - assim eram suas acertadas decisões
imediatas. - Ia entrar na pagina da esposa do seu “ficante” norueguês e botar a
boca no trombone!
- Aquela evangélica sem graça vai saber tudinho agora, tudinho...O que seu
santo maridinho anda aprontando do lado de baixo do Equador e, principalmente,
por baixo das minhas saias...Ah, vai...
Miss andava de caso com um tal norueguês que
conhecera numa balada, a princípio coisa à toa, o relacionamento foi aquecendo
até o balde de água fria: Border descobriu que seu amado era compromissado.
Desde então, oscilava entre lutar pela conquista definitiva do bofe, como
simplesmente por comprar uma briga, sem maiores fins, pelo simples prazer do
jogo de poder com a outra. Nessa manhã, estava para postar a boca no trombone
quando, infelizmente, ou por mãos divinas, um telefonema convocara Border a
outras urgências.
II - Um amigo e umas fantasias
Cairo, filho de família tradicionalíssima, dos tempos da São Paulo de
Piratininga, família que, apesar de absolutamente quebrada, ainda beneficiava
seu menino de cinquenta anos, com um belo AP perto da MTV, ali, ali, onde todos
dão autógrafos, menos esse narrador e os garçons da Padaria Real.
Fato que Cairo guardava um tesão vulcânico por Border, e insistia, quando em
sua fase de euforia – comparado às oscilações da amiga, Cairo não
passava de humilde bipolar clássico - em telefonemas pouco ortodoxos e cantadas
originais, que no mínimo, traziam o benefício de resgatar Miss ao mundo das
gargalhadas, esquecida das suas crises mundiais. O que, de fato, não era lá
tarefa muito difícil : os humores da donzela voavam à merce de qualquer brisa,
como os canais de TV após a invenção do controle remoto.
Naquela manhã, Cairo lançou uma das boas e com voz sedutora:
- E ai...meu bem...já acordadinha para uma gag ?
Quase uma hora da tarde.
- Porra Cairo, não começa, não começa, tô puta com o gringo...
- Relaxa! tenho uma proposta irrecusável: Sabe aquele meu amigo, que tem um
flat nos jardins? Delicia de lugar, tudo na sua mão de estalar os dedos?
- Sei, sei...
- Pois é, ele foi para Londres - ele vive viajando - mas é brother, enfim,
largou a chave do cafofo comigo. Que tal uma gag gostosa? Eu filmo tudinho,
coisa linda!
- (risos histéricos!) - Ái, Cairo, Aí Cairo...tá louco é? Só você mesmo...
- Querida, você pode usar uma mascara, eu deixo!. Ninguém vai saber...
Tentando mudar de assunto e martelar em suas atuais dores:
- Porra, Cairo, aquele safado fica mandando posts de amor em aberto pra outra,
a esposa dele, depois de ter ficado comigo a noite toda, pode?
O Outro,nem aí, apenas lutando por sua fantasia:
- Pois então, amor, eu filmo a Gag e você dedica a ele, já pensou: Você olhando
pra câmera e falando - Olha, otário o que você tá perdendo...AH, Miss, vem
comigo, vem...Vai ser lindo...Lindo...
- Para Cairo, para...safado !
Algo chamou atenção de Border, ela seguiu até a janela e com o celular aos ouvidos, passou a observraa o pequeno “Neymar” - um
mocinho bom de bola, apelidado como o nome do mais famoso, - ele ia se perdendo
na esquina em direção ao campinho de várzea...Há algum tempo, Miss andava
apreciando os dotes físicos do moleque – Olhar não arranca pedaço, não é? –
pensava.
- Uhn, que gostosoo...- Falou alto, Cairo pensou fosse com ele.
- Sim amor, uma delícia...
Mas Miss Borderline nunca
esteve tão animada com um tanque: na verdade com o tanquinho bem torneado daquele mocinho da vizinhança.
- Gostosooo!- Ela pensava – Uma hora saio a forra com aquele gringo descarado!
O moleque, umas décadas e outras tantas primaveras a menos que ela, desfilava
todo dia pelo bairro, de barriguinha para fora e - apesar da camiseta oficial
da "Poderoso Timão" que mantinha, com sabedoria, bem enrolada
para deixar a mostra seu principal talento - ostentava orgulhoso um belo topete
Neymar! Sempre que passava, o adolescente lançava uma olhadela para aquela
senhora na janela, charmoso, sabido de ser observado.
- Que gostosoo...
No entanto. Mesmo na iminência de alguma saborosa vingança, reclamava Border muito sentida:
- Caramba, oh, dedo torto, que tenho, viu! Um País tão rico, das rendas per capita
maiores do mundo, justo eu, justo eu... fui arrumar um Norueguês duro? E
ainda... galinha? Safado, safado! Ah, pois vai se ver comigo, ora se vai -
voltando os olhos ao filhote de boleiro que passava longe, suspirou:
- Mas que gostosooo ! Que barriguinha...só dezessete, acho...
Ao celular, praticamente esquecido, Cairo
insistia eu suas viagens sexuais solitárias, enquanto Border permanecia distante, mais
interessada na ligeira paisagem da janela.
III - Três corações
Às
13:42h , pouco depois de ter desligado o celular e recusado outro convite de
Cairo para uma gag gran fina, o horário de Brasília encontraria Miss Border
absolutamente entregue ao abandono no sofá de sua sala.
Revistas diversas de um ecletismo virtuoso - de
Caras à Tio Patinhas, da Piau a Capricho - espalhavam-se a esmo, em equilíbrio
com inúmeros copos sujos e uma garrafa de Bourbon dos piores. Janela e cortina
bem fechadinhas combinavam com seu preciso humor de instante.
Border só encontrava consolo mesmo no imenso pacote de pipocas de microondas
que acabara de preparar e numas ligeiras passadas de olho em sua rede social:
absolutamente esparramada, ela esticava o pescoço e braços para acompanhar
alguns posts no pequeno computador largado displicentemente no chão...
- Porra, tô mal... Esse Cairo! Será que vou com esse maluco e pronto...Ah, um
Flat até que é bacana, tudo de bom, comida, e mais comida.Porra, to mal.
De repente, em sua pagina, um milagre! O Gringo casado, sua paixão, ressurge
animado, num post surpreendente e, só para ela, muito significativo! – Segundo
sua interprestação, um convite certeiro
de um apaixonado !
- Nossa, que lindo! Três coraçõezinhos! ... Amei! Eu sou Foooda! Ele lembrou de
mim! Ele lembrou de mim...- Saiu pulando e berrando, por um fio, não fez um
gol, acertando na TV com um copo americano mal educado, simplesmente por uma
mensagem sintética, resumida a três pequenos corações. Isso foi o bastante para
que a heroína arrancasse um convite para uma janta com esse seu amado.
Às 13: 52, após o recebimento da maravilhosa mensagem de amor: um post resumido
a três pequenas figuras em forma de
coração, o horário de Brasília encontraria Miss dando os últimos tapas na sua
balzaca beleza, prometendo a si mesma!
- Eu só vou jantar. Ele não vai encostar um dedo em mim...Quero só ver!
No fim da tarde, contadas as dezenas de
idas e vindas ao espelho; o cuidado extremado que foi alavancado por mais um
instante de ensolarada inspiração, e um comprimido Depakote qualquer, podia se
dizer que era sim preparada para seu Gringo, e com muito gosto, uma bela de uma
lasanha dominical.
- Eu estou lindaaaa...Eu sou fooooda!
IV - Seu melhor amigo: o telefone.
Pouco antes de sair para seu Date, outro telefonema importantíssimo tomara preciosos
minutos da heroína. È preciso dizer , q telefone era tudo para Border, ela não
dispensava uma boa prosa, que quase sempre
redundavam em seus monólogos.
- Eu acho assim, por exemplo,
que todo mundooo !!!! . . .
O telefone era onde Borderline expressava suas opiniões cheias de convicção !
Concordasse ou não com o aborto de manhã, ela podia achar indiscutivelmente
assim, o que a noite acharia absolutamente assado !
Mas o poder de suas palavras – sempre aos berros! - e a quantidade delas,
levava a nocaute qualquer santo. Gim, como era carinhosamente conhecida pela
confidente, tinha uma paciência tibetana, quem sabe pelo hábito da maconha -
Santo remédio para suas ressacas! ...
E Border, continua ( Ela sempre continuava...) :
- Eu acho assim, por exemplo - a gente tem de ter palavra!... Eu, por exemplo,
Gin...
Gin, do outro lado, que acendia mais um,
a procura de um engov na bagunça do armarinho da cozinha repleto de
medicamentos, ela responde:
- Hã, hã...muito louco, Miss, certíssima...também acho...
- Enfim, Gin, legal falar com
você, mas estava de saída, depois te conto, coisa quentíssima, quentíssima...
A outra, curiosa, pergunta.
- É sobre o tal gringo?
- Sim, sim... ele me enviou
uma mensagem! Três coraçãozinhos !
-Hã? ... E ai ? - Gin realmente não captou a essência, a
importância da mensagem passava longe da sua brisa. Border, preferiu não detalhar,
simplesmente estava eufórica para encontrar seu amor.
- Tá, Gin, tá...depois explico, to saindo.
V - The book is on the table
E não deu em nada o almoço ajantarado e todos os preparos para o "date" com seu amor
gringo. Miss Border inconformada, voltou para casa sem entender o desânimo do
bofe que não se decidia, sequer lhe encostou um dedo! - Nem um beijinho?
E, realmente, não sairam dumas comidinhas
japonesas - peixe cru, mais peixe cru - cansada, ela estava cansada...- Que,
Ironia, me sentir assim - pensou- um passarinho preso numa gaiola, aqui, em
plena "Liberdade" !
Já no metrô - de volta - puta da vida, ela maldizia sua incompetência em
Inglês! Ela queria dar um basta de verdade naquela relação tão virtual. Falar
tudo, tudo e mais um pouco e do fundo do seu coração, pro seu mais amado
norueguês de meia tigela!
"Você não vale nada! É um sem vergonha, e ainda fica postando declaração
pra'quela infeliz da sua esposa que é uma tonta lá em Oslo, eu sei, eu sei!
...Que hipócrita..." -
Mas, em solilóquio, soltava apenas, e de repente, o que lhe restava de
verdadeiro, no profundo de sua alma inglesa:
- Fuck you !
Ah, se soubesse mais do inglês, certamente iria fundo!
"Você é um vazio, não compreende a alma de uma mulher, a essência do amor,
e um nada de psicologia...Você...Você...não vale nada. Quer saber? Já viu
alguma palestra de Zibia?"
Mas, infelizmente, no metrô, os outros passageiros só estranhavam aquela
senhora, bem apanhada, mas meio maluca, que soltava vez ou outra e em boa
altura uns:
- fuck you, baby !
"Porque a vida é muito mais que esse seu mundinhooo, essa sua
depressãzinhaaa, viu? Você é um "egotripe" e tem mais..."
- fuck you, fuck you...mil vezes...fuck you...