sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Hoje eu virei adulta!


Sempre adotei um estilo alternativo de vida. Ser alternativa para mim era sinônimo de jovialidade. Viajar? Só se fosse de mochila nas costas e com disposição para trilhas. Bares? Só frequentava os consagrados “bares ruins”, segundo Mario Prata, ponto de encontro de intelectuais. Aqueles bares “sujinhos”, que oferecem a cerveja mais barata do pedaço, desde que o freguês aguente um par de petiscos gordurosos. Enfim, uma verdadeira intelectual, descolada e antenada.          
Como toda jovem alternativa, sentia-me aberta ao mundo e senhora do meu tempo. Parecia mesmo que meu relógio biológico compreendia esta vocação e meu adolescer se estendia como uma fruta madurinha que insistia em não cair do pé: para se ter uma ideia, dava-me ao luxo de comprar peças de roupa de numeração infantil para meu corpinho de sílfide mesmo após alguns anos da formação universitária!        
Em plena forma, já estava atuando no mercado, lógico, no terceiro setor – não existia melhor alternativa para uma moça tão sacada quanto eu. Batendo de ONG em ONG fui ganhando meu suado sustento, mesmo assim, alternando entre camelôs e lojas de promoção, consegui economizar o suficiente para uma boa alternativa de curso no exterior: um ano inteirinho na Austrália, entre cangurus, surfistas e jovens alternativos do mundo todo! Além do que, isto me traria um benefício extra – sair do país era me ver livre de alguns relacionamentos que já não me deixavam alternativa alguma, aliás, cada tipinho nada alternativo que eu arrumava! Um tal de querer casório! Ufa!
Enfim, certo dia, de mala e cuia na mão, disse pra trupe: Helloo... I’ll go to improve my English. Bye-bye, babies! Pequeno parêntese australiano: mulher não gosta de falar de idade; aliás, moça também não! Mas tendo terminado a “facul” a xis anos, trabalhado mais xis aqui e ali, xis mais xis mais xis... Xi! Acho que beirava o limiar das minhas possibilidades juvenis quando o tempo virou naquele país estranho. Estudando por lá já há alguns meses, havia enfrentado calor de mais de 40º C e, de repente, tive de encarar um dia gelado.
A Austrália podia ser surpreendente, mesmo pra uma gata disposta a múltiplas alternâncias!
Meu desapego jovial, anti-consumista, anti-patricices, a bem da verdade, muito mais preocupada com a estética do dinheiro que dos badulaques, fez com que me contentasse com um único moletom até então: o mesmo eu usava para andar de bicicleta, estudar, trabalhar, às vezes até para dormir. Mas aquele friozinho de ficar o dia todo em casa me fez decidir pela compra de algo mais confortável, aliás, bem alternativo, uma opção razoável antes que o atual se visse em frangalhos.
     Sai à caça do que lá eles chamam de lojas de “second hand” (segunda mão, mesmo), mas acabei me descolando no Vitória Market, uma espécie de Mercadão da Lapa que vende de tudo, de verdura a sapato. Ao chegar à barraca, perguntei:
– How much, please?
    – AU$ 12,00
   Respondi ao dono, em português mesmo, mostrando os dedos das mãos, porque no sexo e no comércio o mundo acaba se entendendo...: Ah, moço... Faz por AU$10,00!
O comerciante, sacando que estava diante de uma turista “pé de havaianas”, bem brasileira e capaz de encher muito o saco, decidiu oferecer o desconto. Feliz, comecei a escolher tamanho, cor e modelo:
     – Achei! Esta calça cinza é o mesmo preço?
     – Yes! – respondeu rispidamente o homem, pronto para fechar a barraca e tirar as roupas das prateleiras.
Eu demoro muito para escolher qualquer coisa, analisando realmente os detalhes! Era uma peça de tamanho M, peguei na mão, medi comprimento, largura e... Nossa! Acho que... Será? Bom, paciência. Até quando eu continuaria usando M?
Perguntei ainda tranquila e confiante:      É numeração infantil, não é? Com seu mau humor e até certa ironia, ele respondeu: Não senhorita, é numeração de adulto! E pelo visto seu tamanho na verdade é G!  
Poxa, eu nem tinha notado! Com tantos altos e baixos nas minhas trilhas, experiências descoladas, inteligente, moderna, totalmente underground e politizada. Alinhada com o suprassumo da cultura lado B, passei-me despercebida! Mas bastaram uns quilos a mais, apenas uns quilinhos e pronto! Sai do M pro G, pior ainda, da numeração infantil para...              Céus! Pensei inconformada: Hoje eu virei Adulta!
Perplexa, corri para a república, pedalando e tentando ver o lado bom, o conforto da nova calça macia e mais folgada, mas, acima de tudo, planejando quando começaria a usá-la para fazer exercício – muito exercício!

Percebi, naquele dia, que os ponteiros resolveram andar e não me restava outra alternativa.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013



 AS AVENTURAS DE MISS BORDERLINE

 I- O Despertar II- Um amigo e umas fantasias III- Três corações IV - Seu companheiro: o telefone  V - Almoço ajantarado


 I - O despertar


O dia amanheceu esquisito, manco e zarolho! Um friozinho úmido de lagoa e sapos. Nem as cadelas, sempre estupidamente animadas – de aborrecer-  saíram de suas casinhas. E cadê o sol nesse dia de meu deus?  Esse estava nem aí com a hora do Brasil:  “moscava” tonto atrás dum cinza  gosmento, que parecia querer despencar pesado feito uma marreta sobre os chifres de qualquer otimista! Lento,... lento,... - Mas muito lento! - Tudo parecia soçobrar tristezas.

E foi justamente, tendo como pano fundo dia tão desnecessário, que veio à luz, um tanto tardia, em costumeira manhã de meio dia.  Mais que acordar – enfim – renascia, Ela! Miss Borderline:

- Ái!!! Que dia lindo! Hoje estou ma..ra...vi...lho...sa !

Acordara em momento de euforia, e assim, nem que o diabo aparecesse de corpo e chifres presentes abalaria sua felicidade e fé na sua humanidade. Saltou do  leito, colocou seu roupão e seguiu para o detalhado ritual de cuidados matinais.

Em tudo Miss Borderline exagerava, em tudo ela era de mais! - Quando não - e isso era frequente – por pouco, sentia-se menos que o mínimo! Um grão de pó no criado mudo. E bastou olhar-se ao espelho, para que seu castelo de cristal ruísse:

- Fodeu! Olha aqui, um fiozinho de cabelo branco! Nossa!...Que merda: to ficando velha, oh, nojo! Tô aca...ba...da...Deus, que horror!

Triste, saiu do cômodo, muito incomodada arrastava os pés pesados, inconformados. Queria se matar, queira se matar! - Um fio de cabelo branco, no auge de seus fogos, ainda, juvenis? Segundos depois, já queria matar um , ah como queria...E resolveu fazer alguma coisa útil com seu ódio.

- Vou acabar com aquele gringo sem vergonha...Já sei, já sei...

Ligou o computador, acessando uma das redes relacionamentos mais famosas, decidiu que não passaria daquele dia - assim eram suas acertadas decisões imediatas. - Ia entrar na pagina da esposa do seu “ficante” norueguês e botar a boca no trombone!

- Aquela evangélica sem graça vai saber tudinho agora, tudinho...O que seu santo maridinho anda aprontando do lado de baixo do Equador e, principalmente, por baixo das minhas saias...Ah, vai...

Miss andava de caso com um tal norueguês que conhecera numa balada, a princípio coisa à toa, o relacionamento foi aquecendo até o balde de água fria: Border descobriu que seu amado era compromissado. Desde então, oscilava entre lutar pela conquista definitiva do bofe, como simplesmente por comprar uma briga, sem maiores fins, pelo simples prazer do jogo de poder com a outra. Nessa manhã, estava para postar a boca no trombone quando, infelizmente, ou por mãos divinas, um telefonema convocara Border a outras urgências.

II - Um amigo e umas fantasias


Cairo, filho de família tradicionalíssima, dos tempos da São Paulo de Piratininga, família que, apesar de absolutamente quebrada, ainda beneficiava seu menino de cinquenta anos, com um belo AP perto da MTV, ali, ali, onde todos dão autógrafos, menos esse narrador e os garçons da Padaria Real.

Fato que Cairo guardava um tesão vulcânico por Border, e insistia, quando em sua fase de euforia – comparado às oscilações da amiga, Cairo não passava de humilde bipolar clássico - em telefonemas pouco ortodoxos e cantadas originais, que no mínimo, traziam o benefício de resgatar Miss ao mundo das gargalhadas, esquecida das suas crises mundiais. O que, de fato, não era lá tarefa muito difícil : os humores da donzela voavam à merce de qualquer brisa, como os canais de TV após a invenção do controle remoto.

Naquela manhã, Cairo lançou uma das boas e com voz sedutora:

- E ai...meu bem...já acordadinha para uma gag ?

Quase uma hora da tarde.

- Porra Cairo, não começa, não começa, tô puta com o gringo...
- Relaxa! tenho uma proposta irrecusável: Sabe aquele meu amigo, que tem um flat nos jardins? Delicia de lugar, tudo na sua mão de estalar os dedos?
- Sei, sei...
- Pois é, ele foi para Londres - ele vive viajando - mas é brother, enfim, largou a chave do cafofo comigo. Que tal uma gag gostosa? Eu filmo tudinho, coisa linda!
- (risos histéricos!) - Ái, Cairo, Aí Cairo...tá louco é? Só você mesmo...
- Querida, você pode usar uma mascara, eu deixo!. Ninguém vai saber...

Tentando mudar de assunto e martelar em suas atuais dores:

- Porra, Cairo, aquele safado fica mandando posts de amor em aberto pra outra, a esposa dele, depois de ter ficado comigo a noite toda, pode?

O Outro,nem aí, apenas lutando por sua fantasia:

- Pois então, amor, eu filmo a Gag e você dedica a ele, já pensou: Você olhando pra câmera e falando - Olha, otário o que você tá perdendo...AH, Miss, vem comigo, vem...Vai ser lindo...Lindo...
- Para Cairo, para...safado !

Algo chamou atenção de Border, ela seguiu até a janela e com o celular aos ouvidos,  passou a observraa o pequeno “Neymar” - um mocinho bom de bola, apelidado como o nome do mais famoso, - ele ia se perdendo na esquina em direção ao campinho de várzea...Há algum tempo, Miss andava apreciando os dotes físicos do moleque – Olhar não arranca pedaço, não é? – pensava.

- Uhn, que gostosoo...- Falou alto, Cairo pensou fosse com ele.

- Sim amor, uma delícia...

Mas Miss Borderline nunca esteve tão animada com um tanque: na verdade com o tanquinho bem torneado daquele mocinho da vizinhança.

- Gostosooo!- Ela pensava – Uma hora saio a forra com aquele gringo descarado!

O moleque, umas décadas e outras tantas primaveras a menos que ela, desfilava todo dia pelo bairro, de barriguinha para fora e - apesar da camiseta oficial da "Poderoso Timão" que mantinha, com sabedoria, bem enrolada para deixar a mostra seu principal talento - ostentava orgulhoso um belo topete Neymar! Sempre que passava, o adolescente lançava uma olhadela para aquela senhora na janela, charmoso, sabido de ser observado.

- Que gostosoo...

No entanto. Mesmo na iminência de alguma saborosa vingança, reclamava Border muito sentida:

- Caramba, oh, dedo torto, que tenho, viu! Um País tão rico, das rendas per capita maiores do mundo, justo eu, justo eu... fui arrumar um Norueguês duro? E ainda... galinha? Safado, safado! Ah, pois vai se ver comigo, ora se vai - voltando os olhos ao filhote de boleiro que passava longe, suspirou:

- Mas que gostosooo ! Que barriguinha...só dezessete, acho...

Ao celular, praticamente esquecido, Cairo insistia eu suas viagens sexuais solitárias, enquanto Border permanecia distante, mais interessada na ligeira paisagem da janela.   



III - Três corações
 Às 13:42h , pouco depois de ter desligado o celular e recusado outro convite de Cairo para uma gag gran fina, o horário de Brasília encontraria Miss Border absolutamente entregue ao abandono no sofá de sua sala.

Revistas diversas de um ecletismo virtuoso - de Caras à Tio Patinhas, da Piau a Capricho - espalhavam-se a esmo, em equilíbrio com inúmeros copos sujos e uma garrafa de Bourbon dos piores. Janela e cortina bem fechadinhas combinavam com seu preciso humor de instante.

Border só encontrava consolo mesmo no imenso pacote de pipocas de microondas que acabara de preparar e numas ligeiras passadas de olho em sua rede social: absolutamente esparramada, ela esticava o pescoço e braços para acompanhar alguns posts no pequeno computador largado displicentemente no chão...

- Porra, tô mal... Esse Cairo! Será que vou com esse maluco e pronto...Ah, um Flat até que é bacana, tudo de bom, comida, e mais comida.Porra, to mal.

De repente, em sua pagina, um milagre! O Gringo casado, sua paixão, ressurge animado, num post surpreendente e, só para ela, muito significativo! – Segundo sua interprestação,  um convite certeiro de um apaixonado !

- Nossa, que lindo! Três coraçõezinhos! ... Amei! Eu sou Foooda! Ele lembrou de mim! Ele lembrou de mim...- Saiu pulando e berrando, por um fio, não fez um gol, acertando na TV com um copo americano mal educado, simplesmente por uma mensagem sintética, resumida a três pequenos corações. Isso foi o bastante para que a heroína arrancasse um convite para uma janta com esse seu amado.


Às 13: 52, após o recebimento da maravilhosa mensagem de amor: um post resumido a três  pequenas figuras em forma de coração, o horário de Brasília encontraria Miss dando os últimos tapas na sua balzaca beleza, prometendo a si mesma!

- Eu só vou jantar. Ele não vai encostar um dedo em mim...Quero só ver!

No fim da tarde,  contadas as dezenas de idas e vindas ao espelho; o cuidado extremado que foi alavancado por mais um instante de ensolarada inspiração, e um comprimido Depakote qualquer, podia se dizer que era sim preparada para seu Gringo, e com muito gosto, uma bela de uma lasanha dominical.

- Eu estou lindaaaa...Eu sou fooooda!


IV - Seu melhor amigo: o telefone.

Pouco antes de sair para seu Date, outro telefonema importantíssimo tomara preciosos minutos da heroína. È preciso dizer , q telefone era tudo para Border, ela não dispensava uma boa prosa, que quase sempre  redundavam em seus monólogos.

 - Eu acho assim, por exemplo, que todo mundooo !!!! . . .

O telefone era onde Borderline expressava suas opiniões cheias de convicção ! Concordasse ou não com o aborto de manhã, ela podia achar indiscutivelmente assim, o que a noite acharia absolutamente assado !

Mas o poder de suas palavras – sempre aos berros! - e a quantidade delas, levava a nocaute qualquer santo. Gim, como era carinhosamente conhecida pela confidente, tinha uma paciência tibetana, quem sabe pelo hábito da maconha - Santo remédio para suas ressacas! ...

E Border, continua ( Ela sempre continuava...) :

- Eu acho assim, por exemplo - a gente tem de ter palavra!... Eu, por exemplo, Gin...

Gin, do outro lado, que  acendia mais um, a procura de um engov na bagunça do armarinho da cozinha repleto de medicamentos, ela responde:

- Hã, hã...muito louco, Miss, certíssima...também acho...

- Enfim, Gin, legal falar com você, mas estava de saída, depois te conto, coisa quentíssima, quentíssima...

A outra, curiosa, pergunta.

- É sobre o tal gringo?

- Sim, sim... ele me enviou uma mensagem!  Três coraçãozinhos !

-Hã? ... E ai ?  - Gin realmente não captou a essência, a importância da mensagem passava longe da sua brisa. Border, preferiu não detalhar, simplesmente estava eufórica para encontrar seu amor.

- Tá, Gin, tá...depois explico, to saindo. 



V - The book is on the table


E não deu em nada o almoço ajantarado e todos os preparos para o "date" com seu amor gringo. Miss Border inconformada, voltou para casa sem entender o desânimo do bofe que não se decidia, sequer lhe encostou um dedo! - Nem um beijinho? 

E, realmente, não sairam dumas comidinhas japonesas - peixe cru, mais peixe cru - cansada, ela estava cansada...- Que, Ironia, me sentir assim - pensou- um passarinho preso numa gaiola, aqui, em plena "Liberdade" !

Já no metrô - de volta - puta da vida, ela maldizia sua incompetência em Inglês! Ela queria dar um basta de verdade naquela relação tão virtual. Falar tudo, tudo e mais um pouco e do fundo do seu coração, pro seu mais amado norueguês de meia tigela!

"Você não vale nada! É um sem vergonha, e ainda fica postando declaração pra'quela infeliz da sua esposa que é uma tonta lá em Oslo, eu sei, eu sei! ...Que hipócrita..." -

Mas, em solilóquio, soltava apenas, e de repente, o que lhe restava de verdadeiro, no profundo de sua alma inglesa:

- Fuck you !

Ah, se soubesse mais do inglês, certamente iria fundo!

"Você é um vazio, não compreende a alma de uma mulher, a essência do amor, e um nada de psicologia...Você...Você...não vale nada. Quer saber? Já viu alguma palestra de Zibia?"

Mas, infelizmente, no metrô, os outros passageiros só estranhavam aquela senhora, bem apanhada, mas meio maluca, que soltava vez ou outra e em boa altura uns:

- fuck you, baby !

"Porque a vida é muito mais que esse seu mundinhooo, essa sua depressãzinhaaa, viu? Você é um "egotripe" e tem mais..."

- fuck you, fuck you...mil vezes...fuck you...